“Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.”
Pero Vaz de Caminha, Carta a El Rei Dom Manuel
sexta-feira, 1º de maio do ano de 1500
Senhores,
Posto que todos os integrantes deste evento tenham direito a voz assim como o poder de manifestá-la publicamente, também eu não deixarei de dar conta dos fatos aqui ocorridos.
O evento em questão trata-se da ocupação permanente (24h por dia) da Galeria Mario Schenberg da FUNARTE, prédio térreo sito ao número 1058 da Alameda Nothmann, bairro de Santa Cecília desta capital, por um grupo de 28 artistas encabeçado por Rubens Espírito Santo, mentor intelectual e coordenador do projeto, o qual está previsto para durar 90 dias e tem por nome CABANA EXTEMPORÂNEA.
E portanto, senhores, do que hei de falar começo:
23/11/2009 – segunda-feira
Os primeiros aportados à FUNARTE foram recebidos com cordialidade pela excelente figura do Sr. Marti, executivo da instituição. Coube a David Bhagavan (pintura, música e cinema) a honraria de ter realizado o primeiro pernoite, feito de ontem para hoje, quando chegamos Pedro Maia de Resende (música e pintura), Fernanda Zerbini (fotografia e pintura), Silvia Mharques (instalação, música e desenho), o próprio Rubens Espírito Santo (doravante RES) e este narrador.
O espaço destinado ao grupo de RES é um salão quadrilátero fechado, cujas paredes de 12 metros de comprimento foram recém-pintadas de branco. O forro é igualmente branco, rente ao teto de duas águas no alto do qual passa um duto de ventilação preto, que emite ruído baixo mas constante. Do teto também pende uma estrutura metálica preta com canhões de luz. O chão é todo cinza. O ambiente, embora lembre uma estufa, é nitidamente mais apropriado à acomodação de coisas sem vida.
A intensidade das luzes foi reduzida por Bhagavan em vista do conforto, faltam doze dias para a abertura do salão ao público, mas os primeiros vestígios de ocupação são visíveis: no chão, tubos de luz fluorescente vermelha e azul ao lado de um colchão de casal lembram o ambiente de um dormitório; no canto adjacente, duas poltronas, um caixote de madeira servindo de mesinha de centro e caixas com discos de vinil formam uma imaginária sala de estar; há também uma geladeira funcionando ao lado de caixotes de mantimento e, mais ao centro, uma grande mesa sobre a qual está posto um aparato de som com diversos aparelhos interligados.
Nele se dá a primeira criação da cabana: espontaneamente, Pedro Maia de Resende e David Bhagavan debruçam-se sobre o dito equipamento, explorando-o com vigor, o que resulta num estimulante fundo musical para Fernanda Zerbini começar a pintar.
RES então chamou os artistas para uma conversa. Por meio de perguntas diretas, provocou uma reflexão sobre a referida improvisação, contrapondo à expressão individual e ao mero entretenimento a necessidade, no campo da cabana enquanto catedral, de um embate consciente com a história da arte, fundamentado no conhecimento do que há de mais atual inclusive no âmbito da música erudita. A isso seguiu uma discussão que parece ter servido para atiçar os ânimos em prol de uma maior vontade de experimentação estética. No calor do debate, Silvia Mharques desenhava suavemente na parede com um incenso.
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24/11/2009 – TERÇA-FEIRA GORDA
Com a chegada de uma só vez do material pesado, a sala tomou ares de depósito. Bruno Shintate (pintura e cenografia), André Sztutman (teoria da arte e pintura), Jan Nehring (arquitetura, cidade, grafitti e stencil), David Bhagavan, Pedro Maia de Resende, Fernanda Zerbini, Sílvia Mharques e RES realizaram o transporte.
O grosso está aqui: caibros e chapas de madeira prensada, rolamentos de aço, estofados, portas de geladeira, cabos, pregos, paus, lonas, tapetes; também o instrumental: escada, solda, compressor, macaco hidráulico, tesoura de chapa, carrinho de plataforma, grampeador pneumático, morsa, lixa elétrica, rolos de fita adesiva, ferramentas diversas.
Todo esse material, que Bhagavan chamou resto de naufrágio, encontra-se espalhado de modo mais ou menos acidental, conforme as contingências do momento do transporte. Se o objetivo primeiro desta instalação fosse o mínimo de premeditação, a exposição seria hoje, e nunca mais.
Mediante esta intuição, Shintate e Bhagavan interferiram no ambiente ajustando somente as luzes da sala e os tubos fluorescentes. O resultado foi um espaço cheio de entes repousando, mudos, na plenitude de sua potência natural. Com o avanço da noite, o fundo musical de Arthur Russel, em delicado diálogo com o silêncio, conferiu uma dimensão de fluxo temporal aos objetos, nesta que pode ter sido a última hora de essência inviolada da matéria-prima.
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25/11/09 – quarta-feira
Uma das paredes foi tomada por quatro telas de Fabíola Chiminazzo (fotografia e pintura), abstrações dotadas de uma sensível interpenetração entre ambiente e pintura.
Às 20h houve aula de RES, com a presença maciça do corpo de ocupantes. Segue a listagem completa dos mesmos e suas respectivas especialidades:
Amanda Mendes – teatro;
André Albuquerque – pintura e teoria da arte;
André Falacho Torres – escrivão;
André Sztutman – teoria da arte e pintura;
Ângela Castelo Branco – poesia e teoria da arte;
Ani Rocco – teoria da arte e pintura;
Bruno Pastore – stencil e grafitti;
Bruno Shintate – pintura e cenografia;
David Bhagavan – pintura, música e cinema;
Elisa Pires Fonseca – pintura e desenho;
Fabíola Chiminazzo – fotografia e pintura;
Fernanda Zerbini – fotografia e pintura;
Flávia Tavares – teatro;
Gustavo Cedroni – cidade e arquitetura;
Iza Figueiredo – pintura e organização;
Jan Nehring – arquitetura, cidade, grafitti e stencil;
Julio César Adum – marcenaria, cinema e teatro;
Lílian Soarez – performance;
Lucas Rehnman – instalação, crítica de arte, teoria da arte e vídeo;
Luisa Doria – pintura, stencil e organização;
Paula Barsotti – moda e teatro;
Paula Borghi – curadoria e organização;
Pedro Maia – música e pintura;
Rafael Aboud Piovani – pintura e organização;
Silvia Mharques – instalação, música e desenho;
Thiago Nassif – música e vídeo;
Victor Sandenberg – arquitetura, vídeo, teoria da arte, cidade e tecnologia.
A aula de RES começou pela leitura do poema Colombo, de Hölderlin. A partir de comentários pessoais dos participantes, RES enveredou pelo tema da apropriação do corpo ante a indeterminação do ser, defendendo que sua obra banca as oposições ontológicas internas, integrando-as, sendo irredutível a um ponto fixo. Literalmente, RES afirmou que “é difícil suportar esse corredor dentro de nós mesmos, é difícil aceitar esse trânsito, mas o intransitivo é a morte, tudo que cristaliza é morte“, ressaltando a necessidade de “abrir mão de normas e regras próprias para seguir adiante” e observando que “é engraçado como a gente perde a vida inteira defendendo uma coisa morta, defendendo um cadáver, quando podia estar traduzindo poemas, fazendo arte…“. Estes foram os principais pontos feridos por RES em sua exposição. A aula terminou com esta fala conclusiva da boca de um discípulo: “O amor é violento, e isso é bom“.
Depois da aula, o grupo deixou a FUNARTE para acompanhar RES à vernissage da artista plástica Ana Paula Oliveira, na Galeria Virgílio.
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26/11/09 – quinta-feira
A sala passou por uma organização geral, do que resultou um ganho sensível de espaço; tem-se a impressão de que as coisas foram retiradas daqui, quando na verdade se deu o contrário. Isto decorreu da racionalização da estocagem, que basicamente deslocou os objetos do centro para as extremidades, agrupando os afins. No centro foram estendidos tapetes, sobre os quais foi montada uma espécie de sala de negócios confortável.
Para este novo ambiente, chamado por Bhagavan escritório de arquitetura, Shintate produziu um computador estético. Este não chega sequer a ser um objeto independente, mas uma impressão surgida da relação entre um teclado de computador sobre uma cápsula de vidro transparente delimitada por fita adesiva verde, uma mesa de vidro também transparente e um tubo de luz fluorescente branca por baixo, no chão. A leviandade dessa colagem que constitui o computador estético é contestada por um detalhe: as teclas do computador encontram-se ordenadas em meticulosa ordem alfabética (a sequência oficial “q, w, e, r, t, y…” foi subvertida por “a, b, c, ç, d, e…”).
Shintate parece mesmo estar decidido a promover um jogo de precariedade e profissionalismo. Reservou um canto da sala para afixar à parede uma listagem de telefones úteis, na qual anexou um relógio de pulso digital, como um espaço mínimo onde a cabana se mantém em compasso com o mundo externo. Também deixou de um carrinho de transporte apenas o espaço por ele ocupado no chão, delimitando-o com fita adesiva; se não bastasse, manteve um pôster natalino da pomba do espírito santo (daqueles de calendário) esmagado sob uma guilhotina de papel; todavia, o corte da guilhotina, ao penetrar o papel, se detém antes de tocar o desenho da pomba em si, como que sugerindo uma hesitação em seccioná-la, bem como a cumplicidade de um terceiro para prosseguir o movimento.
Bhagavan completou um quadro pequeno com tinta de parede e agora está sobre uma tela de 10m2, chamada por RES bandeira pirata. Jan Nehring desenhou numa placa de madeira um panorama de 180º da cabana, incluindo a figura deste narrador ocupando o escritório de arquitetura. Fernanda Zerbini está escrevendo um caderno pictórico. Paula Barsotti, num café informal com RES, recebeu diversas instruções de treinamento para desenho a serem cumpridas naquele mesmo instante, como desenhar a xícara do café sem tirar a caneta do papel, desenhar o sofá sem olhar para o papel, desenhar uma pessoa de olhos fechados e desenhar o extintor de incêndio captando o espírito do objeto.
Às 20h RES convocou oficialmente o corpo de ocupantes para uma reunião estratégica. Subdividiu o grupo em equipes menores, cada qual encarregada de uma frente de trabalho diferente e encabeçada por um coordenador responsável. Aos coordenadores delegou tarefas várias, com atenção especial para a organização urgente quanto ao estabelecimento de datas e rol de atividades, tudo a ser divulgado imediatamente em cartazes. Os subgrupos definidos neste dia, conforme anotações de Luísa Doria, designada COORDENADORA GERAL, foram:
PINTURA – coordenador: André Albuquerque.
TEORIA E CRÍTICA DE ARTE – coordenador: Lucas Rehnman.
GRAFITE, STENCIL E ENTORNO DA FUNARTE – coordenador: Bruno Pastore.
TEATRO, PERFORMANCE E CORPO: coordenadora: Flávia Tavares.
MÚSICA – coordenador: Thiago Nassif.
FOTOGRAFIA – coordenadora: Fabíola Chiminazzo
INTERNET – coordenador: André Falacho Torres
CURADORIA – coordenadora: Paula Borghi
VÍDEO E CINEMA – coordenador: Pedro Maia, com assistência de Bhagavan.
MARCENARIA, INSTALAÇÃO E CENOGRAFIA – coordenador: RES.
PROGRAMAÇÃO VISUAL – coordenador: Pedro Maia.
ASSESSORIA DE IMPRENSA E DIVULGAÇÃO – coordenadora: Paula Borghi.
ARQUITETURA E CIDADE – coordenadores: Victor Sandenberg e Jan Nehring.
POESIA – coordenador: Bruno Pastore.
FILOSOFIA, EDUCAÇÃO E PEDAGOGIA – coordenadora: Ângela Castelo Branco.
PUBLICAÇÃO – coordenadores: Amanda Mendes e Ângela Castelo Branco.
Ao fim da preleção de RES, os homens fortes foram escalados para as 13h de amanhã, quando começa o trabalho pesado de produção.
Como marco deste importante dia de ocupação efetiva, um stencil com os dizeres CABANA EXTEMPORÂNEA, preparado por Jan Nehring, foi transposto para a parede.
Em tempo: André Sztutman, depois de manejar com perícia o complexo de som da cabana, conheceu o prazer de digitar pela primeira vez uma máquina de escrever.
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27/11/09 – sexta-feira
Apenas Thiago Nassif respondeu à convocação de ontem com pontualidade, e montou imediatamente com RES uma grande mesa de madeira para trabalho.
Nesta primeira oportunidade de acompanhar RES em atividade, foi possível apreciar sua intimidade com o martelo. Após ter recolhido do chão objetos supérfluos ‒ incluindo esculturas de Shintate e pinturas de Bhagavan – de modo a ter espaço para trabalhar, RES tirou a camisa, calçou luvas brancas e foi para cima da madeira. Nassif encarregou-se da serra elétrica. A sala transformou-se numa oficina de carpinteiro, e o resultado foi uma mesa robusta e pronta para uso erigida em cerca de 15 minutos.
Jan Nehring foi o próximo a chegar e ajudou RES a prender um armário suspenso. Com a chegada de Bhagavan, Shintate, Pedro Maia, Lucas Rehnman e Fernanda Zerbini, assim como a saída de RES da cabana com Thiago Nassif para comprar material, caixas de feira foram afixadas à parede com função de armários de cozinha. O resto do dia foi ocupado com atividades dispersas de organização e criação.
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28/11/09 – sábado
A sala não apresenta mudança substancial, senão pelo acréscimo de uma mesa de madeira idêntica à outra. Porém, um cartaz de uma mulher obesa sentada num sofá em pose sensual, tendo uma caixa de ferro com uma pequena escotilha presa à face e uma tarja preta passando rente ao pescoço, recebe na parede a inscrição CABANA EXTEMPORÂNEA em stencil vermelho, como que indicando a primeira obra com chancela oficial.
Outro destaque da produção é uma tela de Pedro Maia posta detrás das mesas de madeira. Nela está desenhada um aparelho de TV com traços algo rupestres, como que indicando a primitividade da coisa retratada. A própria tela está propositadamente em más condições, sugerindo o estrago do tempo. Pinceladas vigorosas de azul e branco expressam emoção, implicando comprometimento pessoal com a composição.
Também uma obra de Lucas Rehnman, apesar de pequena, parece representar bem o espírito da cabana: uma folha de papel conspurcada por diferentes materiais, incluindo pregos, traz num canto a frase eu quero o expurgo! presa ao lápis que a escreveu.
Registre-se o fato de a palavra VOCÊ ter sido apagada da inscrição AMO VOCÊ pintada por Fernanda Zerbini na parede.
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29/11/09 – domingo
Primeiro domingo do advento, início do ano litúrgico de 2010.
Logo pela manhã, RES desferiu um ataque decisivo à estética da FUNARTE: passou por cima de todos os grafittis que havia na entrada do prédio, cobrindo-os com rolos de tinta branca. A fúria branca só poupou um par de coxas femininas; o resto foi apagado. Disto a FUNARTE tem mais a agradecer que a reclamar, pois de fato tais grafittis apresentavam formas pueris e açucaradas, refletindo uma espécie de mundo-fantasia de monstrinhos coloridos, mais condizentes com o pátio de uma escola. A intervenção de RES retirou da FUNARTE tal roupagem inofensiva, recolocando a instituição em condição estética de assumir um papel incisivo no desenvolvimento da arte.
Prestado esse serviço à sociedade, a bandeira pirata foi hasteada acima da porta da galeria Mario Schemberg, como para lembrar que neste dia houve uma apropriação de espaço mediante ato de violência. Esta foi sem dúvida a mais radical e transformadora intervenção ocorrida até o momento, com cinco dias para a abertura oficial do evento CABANA EXTEMPORÂNEA, e não deixa também de honrar a própria arte do grafitti, a qual tem sua origem no vandalismo, perdendo força à medida que se afasta dessa origem para servir de enfeite a galerias.
Internamente, o espaço sofreu um rearranjo significativo. Silvia Mharques pôs ordem na cozinha e reservou um dos quatro cantos para o pixexê – uma pesada penteadeira de madeira escura e espelho opaco, com galhos secos sobre o aparador. Além disso, uma mesa de xadrez ‒ com peças de bom tamanho – foi acrescida para entretenimento, a sala do escritório de arquitetura passou a ser a sala de estar aí, e os sofás que desde o primeiro dia haviam composto a original sala de estar passaram a fazer parte da biblioteca de emergência, que possui catálogos de artistas como Joseph Beuys e Chris Burden. A coordenadora geral Luísa Doria mapeou a sala, assim como mapeou o entorno da FUNARTE, prevendo o plano de EXPANSÃO EXTEMPORÂNEA pelas ruas do bairro, em alusão ao atual “plano de expansão” do metrô. Permito-me aludir ao ditado “a fêmea é que faz o ninho” para sintetizar o papel decisivo das mulheres no dia de hoje em conferir aspecto de lar a esta sala branca e quadrada.
Quanto à produção estética em si, destaca-se uma tela de André Albuquerque, em cores vivas, parodiando a clássica pintura de Ticiano Possessão de Ariadne. No seu ensaio, Albuquerque mistura num bolo caótico as formas perfeitamente delineadas dos seres mitológicos que avançam sobre Ariadne no quadro original, aglutinando-os numa maçaroca de cães e demônios que se projetam como uma onda de carne sobre uma Ariadne dotada de uma postura claramente mais viril. A expressividade e sinuosidade da obra contrastam com a opacidade e dureza da produção geral da cabana.
Lucas Rehnman, por sua vez, anexou ao armário suspenso de livros uma caixa preta iluminada por dentro com a inscrição não há dizer sem sintaxe, valorizando o acervo da biblioteca enquanto agente de estruturação da consciência estética.
Já Victor Sandenberg erigiu uma pequena maquete de um conjunto habitacional popular, ato que se incorpora dialeticamente com o movimento geral de ocupação. Também no sentido de ocupação, alguém “escreveu” CABANA EXTEMPORÂNEA na parede com aparelho de grampear.
O mais importante do dia, porém, é que RES erigiu sua primeira obra independente, de função estética. Trata-se de um objeto composto por quatro livros enciclopédicos de arte – Renoir and his art, Van Gogh and his art… ‒ compactados por uma morsa e perpassados pela fiação de um transformador ligado a um spot de luz bloqueado por fita adesiva vermelha.
O máximo de brutalidade encontra-se com o máximo de contenção neste objeto, que constitui ao mesmo tempo uma metáfora do processo de composição do autor e uma solução estética para seu complexo embate pessoal com a história da arte, servindo igualmente de farol mostrando o caminho da produção para os discípulos. Trata-se, portanto, de uma peça extremamente pertinente ao seu contexto, que institui a si própria no mundo e fala muito mais por si mesma ‒ dirigindo nossa fala ‒ do que se pode dela comentar. Não se poderia esperar menos do mestre da oficina.
Em tempo: Fernanda Zerbini apagou o AMO que restava de sua inscrição original.
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30/11/09 – segunda-feira
Uma grande notícia para a cabana: André Sztutman e Pedro Maia de Resende venceram a MOSTRA ANUAL DA FAAP, conquistando bolsas de estudos de até 90%. É um sinal auspicioso o fato de os dois artistas terem obtido este significativo reconhecimento a apenas três dias da abertura da cabana.
Esta segue seu ritmo crescente de produção, de modo que a criação diária começa a superar a capacidade de acompanhá-la por completo. No geral, a mais notável novidade é um cartaz espalhafatoso de RES contendo os PRINCÍPIOS básicos de convívio na cabana extemporânea, cujo “descumprimento acarreta exclusão“. Tais princípios são:
“1 – MÚSICA NÃO AMBIENTE
– Música no interior da cabana, só como evento de arte.
– Use seu fone de ouvido!
– Usar o tempo da cabana para LER.
2 – ORGANIZAÇÃO E LIMPEZA
– Usou, guardou; sujou, limpou.
– Percebeu, arrumou.
– Equipamentos eletrônicos em seus devidos lugares.
3 – A CABANA É UMA EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL COLETIVA, E NÃO UMA BALADA” [esta última palavra vem riscada com um X]
RES também inseriu à porta do salão um cartaz informativo (em alemão) do BLOCK BEUYS, espécie de mapa cartográfico de uma exposição do artista Joseph Beuys, junto do qual anexou um livro de Jean Sévillia de capa negra e vermelha intitulado Le Terrorisme Intellectuel, de 1945 à nos jours – Par l’auteur de Historiquement correct. Tendo colocado também seu farol de livros compactados com morsa para fora do salão, ao lado da porta de entrada, podemos dizer que RES estabelece assim um conjunto mínimo de diretrizes para a ocupação, tanto morais quanto estéticas.
Ainda há outros detalhes que chamam a atenção logo à entrada da cabana: uma máscara antigás pendurada na maçaneta, uma placa de VENDE da imobiliária Lopes e, pendurado na parede, um pequeno quadro conservador, técnico, como um aparente alvará de funcionamento para a instalação; mais de perto, porém, vê-se que tal quadro contém uma ficha oficial de autoavaliação da FAAP, onde consta nome e número de Lucas Rehnman e suas respectivas opiniões convertidas em bolinhas preenchidas à caneta para leitura óptica. Jan Nehring batizou de alvaraque a perspicaz obra de Lehnman .
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01/12/09 – terça-feira
Os nomes dos 28 ocupantes foram grafados em stencil do lado de fora do salão, bem como a inscrição CABANA EXTEMPORÂNEA (acima da porta de entrada).
A conquista do prêmio da FAAP por Sztutman e Maia repercutiu muito favoravelmente no moral do grupo. Também a expectativa quanto ao dia de abertura tem aumentado, embora todos tenham consciência de que quinta-feira é oficialmente apenas o 1° dia de ocupação, o pontapé inical do evento, o qual, aliás, tem por nome ENTORNO DE NOS LIMITES DA ARTE e não se restringe ao grupo de RES, que dividirá a Galeria Mario Schenberg com mais dois núcleos de produção recebidos pela FUNARTE: Mestres da obra, com a exposição Da Terra ao Povo; e Laura Huzak Andreato, com a instalação Café Vacance.
A maior parte do tempo de hoje foi, de fato, empenhada nos preparativos para amanhã, que será o último dia de trabalho pesado para a abertura de quinta-feira, às 19h. Ao final das atividades, um filme de Tarkovski foi projetado com sucesso em uma das paredes. Todos foram dormir cedo.
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Essa historia da cabana extemporanea precisa se rever. cabana ta’ bacana mas e’ uma ideia contemporanea com essas pessoas que juntaram os diferentes pra fazer a diferença. Me lembra o clube do cinema de Santos (ha’ mais de 30 anos) com a iniciativa do Maurice…assistiamos filmes e jantavamos na casa da Beth comentando e relembrando atores, o autor, diretor e sem defeitos especiais, hein. vou conhece-los a viva voz de alma e corpo no presente.Abraço, Lilla Vajda.
Você acha mais pertinente o nome “Cabana Contemporânea”? Gostaríamos de ouvir um pouco mais sobre isso. Aguardamos a sua presença “a viva voz de alma e corpo no presente”, Lila.
Ae, meu escrevinhador predileto.
Honestamente, fiz uma leitura muito das rápidas, pois estou enfiada em trabalhos do jornal. Vou depois ler com mais calma, mas adorei essa ideia. Que bacana!
Depois nos falamos, saiu um errinho de digitação, mas preciso localizar pra te dizer.
Em tempo – participei de um projeto no jornal em que escrevo, de literatura brasileira de cabo a rabo, e na fase inicial compilei vários textos que “continuam ou atualizam” a Carta de Caminha. Muito legal ficou. Qualquer hora te passo.
Rita
Caminha é o cara.
Estou acompanhando com muito interesse esse projeto que achei fantástico. Leonel Brizola acreditou que o aluno tinha maior rendimento com ensino integral. Parabens pela produção cultural em tempo mais do que integral.Vou fazer uma visita com certeza.
Joao Coragem
Pois é, João Coragem, isto aqui é o INTENSIVÃO!
P.S.: BRIZOLA!
Parabens André
Adorei os textos, sobretudo o da pintura e do jardineiro.
Tomei uma lição das origens dessa arte de expressão maravilhosa que é a pintura. Agradeço.
É muito bom, para um escritor, saber que palavras – essas coisas abstratas – podem ser objetivamente úteis. Obrigado.
Caro escriba Falacho Torres,
belas palavras deste cotidiano maluco ao lado de todos os artistas envolvidos. O ofício do relato está primoroso, visualmente lúcido e permeado de uma poética à flor da pele. Parabéns a todos por aí. Enlouqueçam, mas saiam daí vivos!
grande abraço
javier
Deus sabe – e que fique registrado neste diário para os homens – o quão é importante para mim receber este depoimento de um colega escritor como Javier H. Arancibia Contreras, pioneiro no estudo da obra de Plínio Marcos em prosa e cujo livro de estreia – Imóbile - tantas emoções contraditórias suscitou-me. Obrigado é pouco.