Correntes da História VIII

31/12/2009 – quinta-feira, véspera de ano novo.

             Que lufada de liberdade, meus amigos, nesta véspera de ano novo, é saber que, milagrosamente, em meio a estas opressoras civilizações arcaicas com sua rígida e pesada arte do além, floresceu a humanista democracia ateniense, dando início à Antiguidade Clássica!

            O que dizer dos atenienses, meu Deus, numa curta página de diário? Melhor deixar o próprio Péricles dizê-lo:

            “A Constituição que nos rege nada tem a invejar à de outros povos; não imita nenhuma, ao contrário, serve-lhes de modelo. Seu nome é democracia, porque não funciona no interesse de uma minoria, e sim em benefício da maioria. Tem por princípio fundamental a igualdade. Na vida privada a lei não faz nenhuma diferença entre os cidadãos. Na vida pública, a consideração não se ganha pelo nascimento ou pela fortuna, e sim, unicamente, pelo mérito; e não são as distinções sociais, mas sobretudo a competência e o talento que abrem o caminho da fama. Em Atenas todos entendem a política e com ela se preocupam e quem se mantém afastado dos assuntos públicos é considerado como um ser inútil. Reunidos na Assembléia, os cidadãos sabem julgar sabiamente, porque não acham que a palavra prejudique a ação e desejam, pelo contrário, que a discussão faça nascer a luz.”

            Num ambiente assim propício, surgiram pela primeira vez no mundo as individualidades – e que individualidades: Sócrates! Platão! Aristóteles! Ésquilo! Sófocles! Eurípedes!, Heródoto! Píndaro! Arquimedes! Euclides! etc., herdeiros da tradição de Homero! Hesíodo! Tales! Heráclito! Parmênides! Pitágoras! Demócrito! etc. etc. etc.

            Que diferença daquelas opressivas civilizações vizinhas, em que o indivíduo era massacrado em favor de uma inflexível estrutura piramidal, no topo da qual reinava uma fechada, misteriosa, inacessível casta sacerdotal, quando não o próprio deus em pessoa, como no Egito dos Faraós! Ou então daquele fuzuê de povos vizinhos que nem estrutura estatal digna deste nome possuíam, constituindo não mais do que hordas guerreiras analfabetas, chamadas corretamente pelos gregos de “bárbaros”. 

            A arte não poderia revelar maior contraste. O que dizer dos persas – cujo tenebroso império empenhou (graças a Zeus em vão!) todos os esforços para destruir a Cultura Grega, tendo o ambicioso Xerxes montado uma expedição invasora de 180.000 (cento e oitenta mil!) guerreiros e 700 (setecentos!) navios? O que teria sido da arte e da civilização no mundo se os 300 espartanos de Leônidas não tivessem resistido até o último homem no desfiladeiro das Termópilas, retardando o avanço dos invasores, para que o genial comandante ateniense Temístocles tivesse tempo de atrair a frota de Xerxes para a emboscada fatal no estreito de Salamina? (E pensar que Xerxes acompanhava tudo de seu trono instalado na montanha! Como deve ter ficado contrariado o semideus persa com a derrota dos seus setecentos vasos de guerra!)

          Tudo bem que os persas tivessem lá suas qualidades artísticas, especialmente certa homogeneização harmônica da miscigenação cultural mesopotâmica. Entretanto, não deixavam de reproduzir a mesma aborrecida arte hierática das civilizações arcaicas das quais se originou, especialmente a Assíria: figuras parietais rígidas chapadas de perfil numa bidimensionalidade primária (com as duas pernas ou quatro patas no mesmo plano), sem dinâmica, sem personalização, além da insistência nos motivos aberrantes, como animais híbridos de felino com pássaro e quadrúpede, quando não misturando a cabeça de um homem barbado no meio (aliás, esses entes quadrúpedes alados com rosto humano  – os famosos touros androcéfalos – representavam bem o espírito militarista dos assírios/persas, pela sugestão de força bruta aliada à rapidez).         

            Que covardia comparar o Touro Androcéfalo (do Louvre) com o clássico Discóbolo (do Vaticano)! É como comparar a estupidez de um quadrúpede com a racionalidade de um bípede. O Discóbolo é a famosa estátua de um atleta olímpico de arremesso de disco, nu, prestes a executar seu movimento (os arremessadores de disco eram chamados discóbolos, donde o nome da estátua). Seu autor é Míron, que, atrás ainda de Fídias, era um dos maiores escultores da Grécia Clássica, junto com Lisipo, Praxíteles e Policleto. Na pintura grega (menos brilhante em relação à escultura), destacaram-se Apolodoro, Zêuxis, Apeles e Polignoto.

            Como deviam repugnar ao refinado gosto grego do século V a.C. (auge do classicismo) aquelas figuras bizarras da arte oriental! Os artistas gregos primavam pela elegância, proporção, harmonia, equilíbrio, pureza, sobriedade, perfeição, individuação, dinamismo, e então vinham os persas com aquelas imagens paralisadas de bestas chifrudas irracionais, ou então representações bidimensionais de guerreiros de perfil mas com o olho frontal! Lado a lado com a ameaça de escravidão, os gregos sofriam a ameaça do brega (espécie de luxo feio), com seu apelo fácil ao homem inculto, que se deixa impressionar com formas toscas,  desde que sejam berrantes e chamativas (e não faltava ouro à Pérsia para esculpir seus touros).

            Os gregos, porém, venceram a luxuosa afetação persa, e quando depois a mesquinhez da rivalidade entre Atenas e Esparta enfim os enfraqueceu a ponto de os macedônios e romanos os vencerem facilmente, sua cultura venceu o vencedor.

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