11/10/2010 – quinta-feira
– Cadê a proteção do Pajé?
Esta foi a primeira observação feita por um dos que adentravam a galeria Mário Schenberg no início da noite de ontem para participar da celebração do fim e do início, conforme convocação neste diário.
– Para proteger o quê? A putaria? – respondeu-lhe em alto e bom som Jan Nehring. Referia-se este cabaneiro, em tom de crítica, ao fato de seu companheiro Rafael Pajé Aboud ter retirado o altar a S. Jorge a contragosto, em razão de RES ter classificado com aquele termo pejorativo o evento de hoje (Rafael é um homem religioso, e como tal se viu obrigado a evitar o risco de exposição do santo a sacrilégio). A ausência do altar de Pajé é um sinal visível de que a galeria de arte deixou definitivamente de ser um espaço ativo do sagrado para virar, a partir de agora, uma ruína de templo, exposta à visitação como museu: S. Jorge, sem chama de vela que se lhe devote, já não olha pelo lugar, embora sua imagem (isolada do altar) ainda possa ser vista na parede tal como Rafael a pintou.
A falta da intercessão de Pajé junto ao santo, em favor da coletividade, não impediu que Bhagavan David insistisse em manifestar sua religiosidade própria, por meio de uma performance arriscada. A realização desta envolveu três objetos: dois rolamentos de aço de 35kg cada e a escada mais alta da Funarte, apropriada para elevar trabalhadores a seis metros de altura.
A utilização dos rolamentos já foi, em si, uma atitude de alta significação, pelo menos no ambiente interno da cabana: estes objetos maciços e dotados de perfeita mobilidade, esculpidos pela indústria pesada alemã, são de tal modo impactantes esteticamente, em sua pureza, densidade e concentricidade, que, diante deles, podemos compreender o porquê daquela estupefacta conclusão de Duchamp em 1913, ao ver, numa feira de aeronáutica, a forma das hélices dos aviões: “a pintura está morta!”. A melhor homenagem que se podia fazer a estes dois rolamentos, que conviveram calados com os internos da cabana desde o início (servindo um deles durante muito tempo, inclusive, de contrapeso a um sofá suspenso na cabana concreta), foi feita hoje por Bhagavan David.
A coisa se deu da seguinte forma: logo após a entrada da galeria estava postada a grande escada de cor abóbora (do plástico das traves laterais) e prateada (do alumínio dos degraus), junto da qual estavam no chão, um de cada lado, dois dos ditos rolamentos. Uma eventual leitura metafórica fálica (interpretando a escada como um falo e os rolamentos como seus testículos), embora em nada corresponda à intenção do autor, não seria de todo desproposital: de fato, como bem assinalou Iza Figueiredo no dia de ontem, a virilidade tem se expressado de modo exacerbado na cabana, de modo tão poderoso que chega a intimidar a produção feminina (exceção feita a Silvia Mharques, cuja potência natural dos trabalhos confere o feminino exato requerido pela obra geral, simbolizado nas geladeiras hidráulicas, as quais constituem coração sereno e pulmão regulado de todo aquele corpo desproporcional e precipitado da cabana concreta, num casamento perfeito de potências antônimas e complementares).
Em silêncio absoluto, Bhagavan ajoelhou-se diante de um dos rolamentos. Logo enfiou a cabeça por meio de seu vão, ergueu-o por sobre os ombros, levantou-se, agarrou as traves abóboras da escada com ambas as mãos e, vestindo o anel de aço como um colar de penitência, subiu passo a passo até o topo. No ponto mais crítico, passou para o lado de lá da escada num lance de pernas semelhante ao montar e desmontar de um cavalo, desceu passo a passo até o chão, ajoelhou-se, retirou a cabeça de dentro do rolamento deixando-o em posição de repouso, mergulhou para dentro do outro, ergueu-se, agarrou a escada, subiu de novo passo a passo até o topo, atravessou o lance crítico, desceu até o chão e deixou o segundo rolamento também em posição de repouso, de modo que, findo este primeiro ciclo, os dois rolamentos gêmeos terminavam um ocupando o respectivo lugar do outro; sem variar o ritmo, partiu para o segundo ciclo, para o terceiro, para o quarto, o quinto, o sexto, o sétimo… – sempre com os colares de aço de 35kg sobre os ombros.
A ação circular, repetida numa cadência uniforme, parecia não ter perspectiva de fim. Cada passo daquele homem de peso dobrado, cada volta sua no ar por cima da escada suspendia o fôlego dos espectadores que, mudos, participavam com respeito daquela liturgia de um homem só.
Nem todos, entretanto, tiveram a mesma reação diante do desconforto de ver um rapaz de 27 anos, em pleno viço da juventude, arriscar-se a quebrar o pescoço. Thiago Nassif, por exemplo, entrou em estado meditativo hindu; Sztutman teve de deixar a sala por um momento, e Pajé parecia uma alma paralela de Bhagavan, mantendo a si mesmo sereno como num compromisso de não desequilibrar o outro; isto só para citar alguns, porque todos os seus amigos queridos, como Bruno Shintate e principalmente sua namorada Cléo, pareciam rezar à sua maneira. Num canto escuro da sala, impassível, RES apenas observava.
Claro que Bhagavan passava extrema segurança no que estava fazendo, senão alguém já teria parado aquilo. Altamente centrado, parecia em perfeito domínio de sua mente e de seu corpo. Transmitia serenidade e equilíbrio. Nisto lembrou, guardadas as devidas proporções, o grande equilibrista francês Phillip Petit, que, conforme escrito pelos próprios cabaneiros no corredor de entrada da Funarte, “transitou por mais de 30 minutos por um cabo fixado entre dois edifícios com mais de duzentos andares.” Phillip Petit declarou em entrevista que “não existe medo nem ansiedade; como confio inteiramente no equipamento, a minha travessia passa a ser um momento de paz, de serenidade, de iluminação interior. Sim, há risco. Mas o que me move não é um desejo de morte e sim um desejo de vida“.
Assim também Bhagavan, movia-o claramente um desejo de vida. Pode-se fazer aqui um paralelo da ação de Bhagavan com a penitência no sentido doutrinário da Igreja: sacramento de cura, que conduz da morte para a vida, a penitência é um esforço pessoal de conversão por meio de atos de reparação dos pecados e restauração dos hábitos próprios do discípulo de Cristo. A penitência envolve necessariamente uma contrição verdadeira do coração.
Sem que fosse preciso conhecer nada da doutrina da Igreja, foi isso o que se viu em Bhagavan David: nada de afetação, nada de show, mas seriedade, circunspecção. gravidade litúrgica. Não obstante, há que se notar que, dentre os diversos “efeitos espirituais do sacramento da penitência“, tais como “a reconciliação com Deus, pela qual o penitente recobra a graça“, consta “o acréscimo de forças espirituais para o combate cristão” (Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1496). Aqui vemos de novo, expressamente, conceitos que tocam a sensibilidade masculina: força e combate. É exatamente disto que parecia se tratar a performance de Bhagavan: hombridade e espiritualidade calcados no esforço, na luta, no trabalho, no sacrifício.
Mas a performance pôs em jogo algo além: a própria vida. Nisto Bhagavan não foi muito católico, já que “somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela“(CIC, §2280). Isto porque, apesar de toda sua religiosidade, em algum momento as forças corporais de Bhagavan certamente haveriam de sucumbir, por mais concentrado que estivesse. Assim, como sua ação era cíclica e aparentemente sem fim, a coisa parecia se encaminhar fatalmente para um desastre. Isto pareceu mais evidente quando um dos rolamentos não parou na posição de repouso e caiu, com todo o estrondo do aço no concreto do chão. Pouco depois disso, Pajé retirou de cena um dos rolamentos; mas Bhagavan insistia em continuar a performance com um rolamento só.
A passagem de perna de Bhagavan pelo topo da escada, a certa altura da ação, não foi a mesma. Um dos cabaneiros foi até RES externar sua preocupação; RES respondeu, muito à vontade, que preferia deixar os meninos se resolverem sozinhos, com autonomia.
“Já deu. Retire a outra roda!“, suplicou-lhe o cabaneiro, e voltou para seu lugar.
Demorou ainda um tanto, mas RES, talvez contemplando o conjunto da situação e o seu papel naquilo, deixou enfim a penumbra de seu canto e foi até o pé da escada de Bhagavan. Este, extenuado e rubro, chegou ao chão mais uma vez com seu cangote de aço, quedou de joelhos, encurvou-se e o deixou em posição de repouso para a próxima subida; antes, porém, RES, num toque de mestre, meteu a botina no rolamento e o empurrou, fazendo-o rolar sem esforço para fora da galeria. O rolamento foi parar lá fora, sendo parado em seu movimento pelo pé de um contemplado que estava no caminho.
O discípulo estava livre. Só o mestre poderia tê-lo retirado do jugo com propriedade, e assim o fez, até porque outro certamente iria fazê-lo em seu lugar.
A performance de Bhagavan já valera a noite, mas era só o começo, que atingiria o clímax na figura de Lucas Rehnman. Antes disto, porém, os olhares foram atraídos para a parede em que Lucas Schlosinski projetou seu filme elaborado a partir das captações audiovisuais realizadas ao longo de sua experiência na cabana. A relatividade do espaço e do tempo em relação ao observador recebe no, por assim dizer, “documentário poético” de Schlosinski uma confirmação tácita, revelando o quanto há de singularidade no olhar de cada participante de um mesmo evento: a subjetividade do documentarista recorta e apreende a realidade objetiva geral conforme a deformação das lentes de sua poética própria, oferecendo também o precioso testemunho de algumas situações que só ele vivenciou ou para as quais só ele atentou. O registro particular de Schlosinski sobre a cabana, sempre atento à presença do tempo como um protagonista permanente e invisível, realiza também o pensamento do estruturalista russo Mikhail Bakhtin:
“O real é um aumento mútuo de diferentes pontos de vista, que permitem ultrapassar os limites da mediocridade de cada um deles. Cada juízo contém uma parte de verdade que se exprime no seu cruzamento. (…) O cruzamento de numerosos estilos (pontos de vista) contrastados dá uma significação objetiva supraestilística. Um mesmo conteúdo é representado em diversas chaves semânticas e diversas tonalidades estilísticas. A significação surge como resultado da projeção mútua de camadas estilísticas.(…) O real descobre-se como a sobreposição mútua dos aspectos.“
Finda a projeção, que absorvera a atenção de todos os presentes, a confraternização voltou ao normal: cabaneiros e visitantes voltaram a conversar e andar livremente pelo espaço, em clima de descontração. Não se sabia ainda o que estava nos planos de RES, mas logo se percebeu que não tinha nada a ver com festa.
Com efeito, RES começou a formar, em torno de si, de André Albuquerque e de Piero Chiaretti uma redoma de silêncio.
Este último foi encarregado de dar aos demais cabaneiros uma aula sobre fé. Pouco a pouco, seus companheiros foram se aproximando e compartilhando do silêncio. Quando a totalidade dos cabaneiros presentes compôs um círculo compacto, os visitantes que ainda restavam deixaram a galeria. Só ficaram os membros da ocupação. Formavam esta seleta roda André Albuquerque, Rubens Espírito Santo, Thiago Nassif, Piero Chiaretti, Luísa Dória, Lílian Sorez, Lucas Schlosinski, Paula Borghi, André Sztutman, Fernanda Zerbini, Jan Nehring, Silvia Mharques, Pedro Maia de Resende, Renata Junqueira, Rafael Pajé Aboud, André Falacho Torres, Lucas Rehnman e Bruno Shintate.
Piero Chiaretti, extremamente taciturno, deu sua aula de fé procurando demonstrar na prática, pela crescente densidade do silêncio coletivo, a verdade da possibilidade de tornar tangível o aspecto imaterial da realidade.
Um debate sobre fé se sucedeu, e, embora a lógica das conversas fosse algo imprecisa, tudo se passou numa atmosfera de grande circunspecção. Independentemente do conteúdo vago das falas, persistia certa atmosfera de perigo, como se o silêncio introspectivo compulsório fosse um teste para os “fracos de fé” atados àquela misteriosa corrente humana. Diante desta provação, alguns pareciam adotar postura de fechamento e prontidão, enquanto outros de abertura e comunhão, cada um conforme suas contingências.
Entretanto, com o passar do tempo e a dispersão da conversa, o silêncio foi perdendo a densidade e já não exercia a mesma pressão. A coisa ameaçava recair na pasmaceira (sempre um risco nestas reuniões), até que Lucas Rehnman pediu a Paula Borghi que lhe desse um tapa (Lucas Rehnman e Paula Borghi formam um dos mais belos casais da cabana, apesar de certa desavença recente). Rehman tirou os óculos, ajoelhou-se diante da jovem e ofereceu-lhe o rosto. Esta, porém, em vez de lhe fazer a vontade, desferiu dois tapas em si mesma, um em cada face. Rehnman então tentou pegar o pulso da moça à força para conseguir seu tapa. Sem sucesso, perguntou se alguém poderia lhe dar um tapa.
Imediatamente um cabaneiro mais velho sentiu um chamado de salvamento, ergueu-se e postou-se diante de Rehnman. Este também se levantou e, cara a cara, recebeu um tapa digno do nome, no peito. A violência do golpe teria provocado uma reação proporcional e acarretado uma briga em qualquer outra circunstância; ali, porém, não ultrapassou a medida da justiça. Lucas voltou ao seu lugar livre do peso de ficar impune de seu erro, reparando-se também Paula da mágoa deixada pelos tapas que dera em si mesma. Bruno Shintate, com a mão no ombro de Rehnman, comungou da catarse sofrida pelo amigo, emocionando-se sincera e profundamente.
Depois disso, RES mandou que Renata Junqueira limpasse a mesa de centro. Em seguida, mandou que se deitasse ali. Renata fez como RES lhe mandara. A isso se seguiu uma série de perguntas a Renata Junqueira, dentre as quais, certamente, as mais incisivas e pertinentes foram as de Silvia Mharques. A sabatina terminou com uma cena digna de happy-end protagonizada por um inspirado Rafael Pajé Aboud, que, em vez de dirigir qualquer palavra a Renata, aproximou-se dela e lhe fez os mais ternos carinhos no rosto, ao que lhe deu um beijo nos lábios, intenso e casto, enquanto lhe deitava suavemente a mão sobre o coração.
Assim, com amor e sem palavras, encerrou-se a reunião. RES foi embora algo contrariado e taciturno (estivera assim ao longo de toda a noite, rondando a galeria com as mãos fechadas detrás das costas, olhando de esguelha por debaixo da aba de seu chapéu). Os remanescentes dançaram até o fim da noite.
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