Arquivo de fevereiro \18\UTC 2010

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

 18/01/2010 – quinta-feira

          Conforme o programado, eis o diário da cabana em atividade.

          Mas não exatamente como seu redator supôs. Ontem, quarta-feira de cinzas, já de volta a São Paulo depois de sua folga de quatro dias (cf. grito de carnaval), dirigia-se à Igreja, pouco antes das 18h, para ouvir missa e receber sobre a cabeça a aspersão das cinzas, segundo o costume.

          Este importante detalhe requer que se abra um parêntese: a quarta-feira de cinzas, não custa lembrar, é a celebração do início da quaresma, período de quarenta dias de penitência em preparação para a Páscoa da Ressurreição. Todo ano, neste tempo, a Igreja se une ao mistério de Jesus no deserto, o qual, levado pelo Espírito, foi para lá imediatamente após seu batismo nas águas do Jordão, permaneceu quarenta dias de jejum vivendo com os animais selvagens, rechaçou as tentações de Satanás e voltou para a Galiléia proclamando, nestes termos, o Evangelho de Deus: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho“.

          A quaresma costumava ser um tempo de penitência rigorosa para os fiéis. Não comer carne durante esses quarenta dias era praxe. Assim, no dia anterior ao início da quaresma, muita gente desenvolveu o perigoso costume de se fartar de carne à vontade, em banquetes festivos. Aproveitavam também para cometer os “últimos pecados” antes do longo período de abstinência. De pouco em pouco, surgiu o carnaval, ou “festa da carne”, que se incorporou à cultura da Europa cristã (donde veio aportar nos trópicos com enorme sucesso). Assim, todo ano no Brasil, o dia anterior à quarta-feira de cinzas é declarado oficialmente “feriado de carnaval” (rigorosamente, de acordo com o calendário brasileiro, apenas a terça-feira é feriado de carnaval, tradicionalmente chamada “terça-feira gorda“, em referência aos excessos da gula e à concupiscência [fraqueza da carne]; o resto – sábado, domingo e segunda – é emenda).

          Bom, dizia eu que, tendo voltado do descanso de carnaval, ia para a celebração de cinzas quando, pouco antes das 18h, vi o Atelier do Centro de portas abertas. Lá estavam Rubens Espírito Santo e Silvia Mharques. Como não os via há dias, dei uma rápida passada no estúdio para saber como andavam as coisas.

          Fui informado de que a cabana extemporânea acabou.

         Hoje pela manhã, fui pessoalmente ajudar RES e André Albuquerque a demolir tudo. Sobrará na galeria Mário Schenberg apenas o espaço em ruína.

         Agradeço a todos os pacientes leitores que acompanharam este diário. Este é o último relato deste escrivão.

 

 

Grito de Carnaval

12/10/2010 – sexta-feira

          Como ninguém é de ferro, também este escrivão dar-se-á o direito de uns dias de folga longe da internet, julgando-os merecidos, além de salutares para sua saúde mental. Apoia-se, ainda, no fato de que a própria Funarte fechará para o carnaval até a quarta-feira de cinzas. 

          Lembramos, contudo, que a mostra NOS ENTORNOS DE / NOS LIMITES DA ARTE  se estende até o dia 28 deste mês, prazo máximo para desocupação da galeria Mário Schenberg pelos integrantes da cabana.

         O diário da cabana retoma suas atividades na próxima quinta-feira dia 18, com o doloroso dever de testemunhar os últimos 10 dias de cabana extemporânea na Terra  – pois haverá outras cabanas (assim como houve a cabana Solaris, a cabana Stalker etc.) mas nunca mais a “extemporânea”.

No Silêncio da Noite

11/10/2010 – quinta-feira

             – Cadê a proteção do Pajé?

            Esta foi a primeira observação feita por um dos que adentravam a galeria Mário Schenberg no início da noite de ontem para participar da celebração do fim e do início, conforme convocação neste diário.

             – Para proteger o quê? A putaria? – respondeu-lhe em alto e bom som Jan Nehring. Referia-se este cabaneiro, em tom de crítica, ao fato de seu companheiro Rafael Pajé Aboud ter retirado o altar a S. Jorge a contragosto, em razão de RES ter classificado com aquele termo pejorativo o evento de hoje (Rafael é um homem religioso, e como tal se viu obrigado a evitar o risco de exposição do santo a sacrilégio). A ausência do altar de Pajé é um sinal visível de que a galeria de arte deixou definitivamente de ser um espaço ativo do sagrado para virar, a partir de agora, uma ruína de templo, exposta à visitação como museu: S. Jorge, sem chama de vela que se lhe devote, já não olha pelo lugar, embora sua imagem (isolada do altar) ainda possa ser vista na parede tal como Rafael a pintou.

          A falta da intercessão de Pajé junto ao santo, em favor da coletividade, não impediu que Bhagavan David insistisse em manifestar sua religiosidade própria, por meio de uma performance arriscada. A realização desta envolveu três objetos: dois rolamentos de aço de 35kg cada e a escada mais alta da Funarte, apropriada para elevar trabalhadores a seis metros de altura.     

            A utilização dos rolamentos já foi, em si, uma atitude de alta significação, pelo menos no ambiente interno da cabana: estes objetos maciços e dotados de perfeita mobilidade, esculpidos pela indústria pesada alemã, são de tal modo impactantes esteticamente, em sua pureza, densidade e concentricidade, que, diante deles, podemos compreender o porquê daquela estupefacta conclusão de Duchamp em 1913, ao ver, numa feira de aeronáutica, a forma das hélices dos aviões: “a pintura está morta!”. A melhor homenagem que se podia fazer a estes dois rolamentos, que conviveram calados com os internos da cabana desde o início (servindo um deles durante muito tempo, inclusive, de contrapeso a um sofá suspenso na cabana concreta), foi feita hoje por Bhagavan David.

            A coisa se deu da seguinte forma: logo após a entrada da galeria estava postada a grande escada de cor abóbora (do plástico das traves laterais) e prateada (do alumínio dos degraus), junto da qual estavam no chão, um de cada lado, dois dos ditos rolamentos. Uma eventual leitura metafórica fálica (interpretando a escada como um falo e os rolamentos como seus testículos), embora em nada corresponda à intenção do autor, não seria de todo desproposital: de fato, como bem assinalou Iza Figueiredo no dia de ontem, a virilidade tem se expressado de modo exacerbado na cabana, de modo tão poderoso que chega a intimidar a produção feminina (exceção feita a Silvia Mharques, cuja potência natural dos trabalhos confere o feminino exato requerido pela obra geral, simbolizado nas geladeiras hidráulicas, as quais constituem coração sereno e pulmão regulado de todo aquele corpo desproporcional e precipitado da cabana concreta, num casamento perfeito de potências antônimas e complementares).

          Em silêncio absoluto, Bhagavan ajoelhou-se diante de um dos rolamentos. Logo enfiou a cabeça por meio de seu vão, ergueu-o por sobre os ombros, levantou-se, agarrou as traves abóboras da escada com ambas as mãos e, vestindo o anel de aço como um colar de penitência, subiu passo a passo até o topo. No ponto mais crítico, passou para o lado de lá da escada num lance de pernas semelhante ao montar e desmontar de um cavalo, desceu passo a passo até o chão, ajoelhou-se, retirou a cabeça de dentro do rolamento deixando-o em posição de repouso, mergulhou para dentro do outro, ergueu-se, agarrou a escada, subiu de novo passo a passo até o topo, atravessou o lance crítico, desceu até o chão e deixou o segundo rolamento também em posição de repouso, de modo que, findo este primeiro ciclo, os dois rolamentos gêmeos terminavam um ocupando o respectivo lugar do outro; sem variar o ritmo, partiu para o segundo ciclo, para o terceiro, para o quarto, o quinto, o sexto, o sétimo… – sempre com os colares de aço de 35kg sobre os ombros.

            A ação circular, repetida numa cadência uniforme, parecia não ter perspectiva de fim. Cada passo daquele homem de peso dobrado, cada volta sua no ar por cima da escada suspendia o fôlego dos espectadores que, mudos, participavam com respeito daquela liturgia de um homem só.      

            Nem todos, entretanto, tiveram a mesma reação diante do desconforto de ver um rapaz de 27 anos, em pleno viço da juventude, arriscar-se a quebrar o pescoço. Thiago Nassif, por exemplo, entrou em estado meditativo hindu; Sztutman teve de deixar a sala por um momento, e Pajé parecia uma alma paralela de Bhagavan, mantendo a si mesmo sereno como num compromisso de não desequilibrar o outro; isto só para citar alguns, porque todos os seus amigos queridos, como Bruno Shintate e principalmente sua namorada Cléo, pareciam rezar à sua maneira. Num canto escuro da sala, impassível, RES apenas observava.

            Claro que Bhagavan passava extrema segurança no que estava fazendo, senão alguém já teria parado aquilo. Altamente centrado, parecia em perfeito domínio de sua mente e de seu corpo. Transmitia serenidade e equilíbrio. Nisto lembrou, guardadas as devidas proporções, o grande equilibrista francês Phillip Petit, que, conforme escrito pelos próprios cabaneiros no corredor de entrada da Funarte, “transitou por mais de 30 minutos por um cabo fixado entre dois edifícios com mais de duzentos andares.” Phillip Petit declarou em entrevista que “não existe medo nem ansiedade; como confio inteiramente no equipamento, a minha travessia passa a ser um momento de paz, de serenidade, de iluminação interior. Sim, há risco. Mas o que me move não é um desejo de morte e sim um desejo de vida“.    

            Assim também Bhagavan, movia-o claramente um desejo de vida. Pode-se fazer aqui um paralelo da ação de Bhagavan com a penitência no sentido doutrinário da Igreja: sacramento de cura, que conduz da morte para a vida, a penitência é um esforço pessoal de conversão por meio de atos de reparação dos pecados e restauração dos hábitos próprios do discípulo de Cristo. A penitência envolve necessariamente uma contrição verdadeira do coração.

          Sem que fosse preciso conhecer nada da doutrina da Igreja, foi isso o que se viu em Bhagavan David: nada de afetação, nada de show, mas seriedade, circunspecção. gravidade litúrgica. Não obstante, há que se notar que, dentre os diversos “efeitos espirituais do sacramento da penitência“, tais como “a reconciliação com Deus, pela qual o penitente recobra a graça“, consta “o acréscimo de forças espirituais para o combate cristão” (Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1496). Aqui vemos de novo, expressamente, conceitos que tocam a sensibilidade masculina: força e combate. É exatamente disto que parecia se tratar a performance de Bhagavan: hombridade e espiritualidade calcados no esforço, na luta, no trabalho, no sacrifício.

            Mas a performance pôs em jogo algo além: a própria vida. Nisto Bhagavan não foi muito católico, já que “somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela“(CIC, §2280). Isto porque, apesar de toda sua religiosidade, em algum momento as forças corporais de Bhagavan certamente haveriam de sucumbir, por mais concentrado que estivesse. Assim, como sua ação era cíclica e aparentemente sem fim, a coisa parecia se encaminhar fatalmente para um desastre. Isto pareceu mais evidente quando um dos rolamentos não parou na posição de repouso e caiu, com todo o estrondo do aço no concreto do chão. Pouco depois disso, Pajé retirou de cena um dos rolamentos; mas Bhagavan insistia em continuar a performance com um rolamento só.

         A passagem de perna de Bhagavan pelo topo da escada, a certa altura da ação, não foi a mesma. Um dos cabaneiros foi até RES externar sua preocupação; RES respondeu, muito à vontade, que preferia deixar os meninos se resolverem sozinhos, com autonomia.

            “Já deu. Retire a outra roda!“, suplicou-lhe o cabaneiro, e voltou para seu lugar.

            Demorou ainda um tanto, mas RES, talvez contemplando o conjunto da situação e o seu papel naquilo, deixou enfim a penumbra de seu canto e foi até o pé da escada de Bhagavan. Este, extenuado e rubro, chegou ao chão mais uma vez com seu cangote de aço, quedou de joelhos, encurvou-se e o deixou em posição de repouso para a próxima subida; antes, porém, RES, num toque de mestre, meteu a botina no rolamento e o empurrou, fazendo-o rolar sem esforço para fora da galeria. O rolamento foi parar lá fora, sendo parado em seu movimento pelo pé de um contemplado que estava no caminho.

         O discípulo estava livre. Só o mestre poderia tê-lo retirado do jugo com propriedade, e assim o fez, até porque outro certamente iria fazê-lo em seu lugar. 

            A performance de Bhagavan já valera a noite, mas era só o começo, que atingiria o clímax na figura de Lucas Rehnman. Antes disto, porém, os olhares foram atraídos para a parede em que Lucas Schlosinski projetou seu filme elaborado a partir das captações audiovisuais realizadas ao longo de sua experiência na cabana. A relatividade do espaço e do tempo em relação ao observador recebe no, por assim dizer, “documentário poético” de Schlosinski uma confirmação tácita, revelando o quanto há de singularidade no olhar de cada participante de um mesmo evento: a subjetividade do documentarista recorta e apreende a realidade objetiva geral conforme a deformação das lentes de sua poética própria, oferecendo também o precioso testemunho de algumas situações que só ele vivenciou ou para as quais só ele atentou. O registro particular de Schlosinski sobre a cabana, sempre atento à presença do tempo como um protagonista permanente e invisível, realiza também o pensamento do estruturalista russo Mikhail Bakhtin:

         “O real é um aumento mútuo de diferentes pontos de vista, que permitem ultrapassar os limites da mediocridade de cada um deles. Cada juízo contém uma parte de verdade que se exprime no seu cruzamento. (…) O cruzamento de numerosos estilos (pontos de vista) contrastados dá uma significação objetiva supraestilística. Um mesmo conteúdo é representado em diversas chaves semânticas e diversas tonalidades estilísticas. A significação surge como resultado da projeção mútua de camadas estilísticas.(…) O real descobre-se como a sobreposição mútua dos aspectos.

          Finda a projeção, que absorvera a atenção de todos os presentes, a confraternização voltou ao normal: cabaneiros e visitantes voltaram a conversar e andar livremente pelo espaço, em clima de descontração. Não se sabia ainda o que estava nos planos de RES, mas logo se percebeu que não tinha nada a ver com festa.

         Com efeito, RES começou a formar, em torno de si, de André Albuquerque e de Piero Chiaretti uma redoma de silêncio.

          Este último foi encarregado de dar aos demais cabaneiros uma aula sobre fé. Pouco a pouco, seus companheiros foram se aproximando e compartilhando do silêncio. Quando a totalidade dos cabaneiros presentes compôs um círculo compacto, os visitantes que ainda restavam deixaram a galeria. Só ficaram os membros da ocupação. Formavam esta seleta roda André Albuquerque, Rubens Espírito Santo, Thiago Nassif, Piero Chiaretti, Luísa Dória, Lílian Sorez, Lucas Schlosinski, Paula Borghi, André Sztutman, Fernanda Zerbini, Jan Nehring, Silvia Mharques, Pedro Maia de Resende, Renata Junqueira, Rafael Pajé Aboud, André Falacho Torres, Lucas Rehnman e Bruno Shintate.

          Piero Chiaretti, extremamente taciturno, deu sua aula de fé procurando demonstrar na prática, pela crescente densidade do silêncio coletivo, a verdade da possibilidade de tornar tangível o aspecto imaterial da realidade.

          Um debate sobre fé se sucedeu, e, embora a lógica das conversas fosse algo imprecisa, tudo se passou numa atmosfera de grande circunspecção. Independentemente do conteúdo vago das falas, persistia certa atmosfera de perigo, como se o silêncio introspectivo compulsório fosse um teste para os “fracos de fé” atados àquela misteriosa corrente humana. Diante desta provação, alguns pareciam adotar postura de fechamento e prontidão, enquanto outros de abertura e comunhão, cada um conforme suas contingências.

          Entretanto, com o passar do tempo e a dispersão da conversa, o silêncio foi perdendo a densidade e já não exercia a mesma pressão. A coisa ameaçava recair na pasmaceira (sempre um risco nestas reuniões), até que Lucas Rehnman pediu a Paula Borghi que lhe desse um tapa (Lucas Rehnman e Paula Borghi formam um dos mais belos casais da cabana, apesar de certa desavença recente). Rehman tirou os óculos, ajoelhou-se diante da jovem e ofereceu-lhe o rosto. Esta, porém, em vez de lhe fazer a vontade, desferiu dois tapas em si mesma, um em cada face. Rehnman então tentou pegar o pulso da moça à força para conseguir seu tapa. Sem sucesso, perguntou se alguém poderia lhe dar um tapa.       

            Imediatamente um cabaneiro mais velho sentiu um chamado de salvamento, ergueu-se e postou-se diante de Rehnman. Este também se levantou e, cara a cara, recebeu um tapa digno do nome, no peito. A violência do golpe teria provocado uma reação proporcional e acarretado uma briga em qualquer outra circunstância; ali, porém, não ultrapassou a medida da justiça. Lucas voltou ao seu lugar livre do peso de ficar impune de seu erro, reparando-se também Paula da mágoa deixada pelos tapas que dera em si mesma. Bruno Shintate, com a mão no ombro de Rehnman, comungou da catarse sofrida pelo amigo, emocionando-se sincera e profundamente.

            Depois disso, RES mandou que Renata Junqueira limpasse a mesa de centro. Em seguida, mandou que se deitasse ali. Renata fez como RES lhe mandara. A isso se seguiu uma série de perguntas a Renata Junqueira, dentre as quais, certamente, as mais incisivas e pertinentes foram as de Silvia Mharques. A sabatina terminou com uma cena digna de happy-end protagonizada por um inspirado Rafael Pajé Aboud, que, em vez de dirigir qualquer palavra a Renata, aproximou-se dela e lhe fez os mais ternos carinhos no rosto, ao que lhe deu um beijo nos lábios, intenso e casto, enquanto lhe deitava suavemente a mão sobre o coração.

            Assim, com amor e sem palavras, encerrou-se a reunião. RES foi embora algo contrariado e taciturno (estivera assim ao longo de toda a noite, rondando a galeria com as mãos fechadas detrás das costas, olhando de esguelha por debaixo da aba de seu chapéu). Os remanescentes dançaram até o fim da noite.   

             

 

 

Aviso aos navegantes

10/01/2010 – quarta-feira

          TODOS OS NAVEGANTES DA REDE QUE ACOMPANHAM ESTE DIÁRIO, COMENTARISTAS OU NÃO, ESTÃO CONVIDADOS PARA  A GRANDE CELEBRAÇÃO DE HOJE, DIA DEZ, A PARTIR DAS DEZENOVE HORAS, NA GALERIA FÍSICO NUCLEAR MÁRIO SCHENBERG DA FUNARTE, ALAMEDA NOTHMANN 1058, ENTRE AS ESTAÇÕES SANTA CECÍLIA E MARECHAL DEODORO DE METRÔ. 

          Celebramos oficialmente o fim e o começo: conquistado e dominado, o território da Funarte deixa, hoje, de ser uma oficina de trabalho e produção para simplesmente ser.   

 

 

O SENTIDO DA AUSÊNCIA

 09/10/2010 – terça-feira

          Às 09h30 de hoje, adentrou a galeria Mário Schenberg uma figura enigmática, uma senhora de calça e camiseta em tons de cinza, cabelos grisalhos, desconhecida deste escrivão, mas que, pelo vigor da postura, parecia manter algum vínculo com a cabana que não o de simples visitante.

          Bruno Shintate dormia no quarto coletivo e Jan Nehring estava de saída para a FAU.

          “O Rubens?“, perguntou a desconhecida.

          Jan respondeu que não estava; a desconhecida continuou a lançar seu olhar assertivo ao redor.

          “Fique à vontade. Qualquer dúvida, pode perguntar“, disse o escrivão, ao que recebeu de volta um simples “não“. Mais uma visitante endurecida?

          Talvez fosse o caso. Porém, quando Jan comentou algo sobre o fato de RES ter declarado, ontem, estar encerrada a fase de produção material da cabana, a mulher tomou o telefone celular para ligar diretamente para ele, no que, contudo, não teve sucesso.

          Jan Nehring foi embora e a visitante desconhecida ficou a sós com o escrivão, o qual permaneceu, assim, como guardião da cabana (na ausência de Rafael Pajé, aquele que fica sozinho tomando conta do QG da cabana recebe este título).

          “Você quem é?“, perguntou o guardião interino à estranha.

          “Eu sou uma dessas que tem o nome aí fora“. Referia-se a mulher à lista dos 28 integrantes oficiais da cabana extemporânea cujos nomes estão colados na parede externa da galeria Mário Schemberg ao lado da porta de entrada, em letras compostas de fita adesiva preta, algumas das quais foram inclusive arrancadas por gente de dentro da cabana com a provável intenção de apagar o nome daqueles integrantes que teriam participado pouco (ou nada) da ocupação.

          Iza Figueiredo: eis, enfim, o nome da cabaneira extemporânea de surpreendentes 65 anos de idade, sendo ela justamente uma das pessoas cujo nome na parede externa da Mário Schenberg estava ameaçado (o próprio I inicial está suprimido).

          Iza lamentou que RES houvesse dado por encerrada a fase de produção material, pois vinha agora com vontade de fazer uma intervenção, mais exatamente um fio ou corda que, partindo do ponto mais alto e central da cabana concreta, fosse estirado de modo descendente até ser amarrado a um pequeno objeto próximo ao chão da parede oposta, o qual passaria assim a sugestão de ser um “calço” da obra. A disparidade entre a enorme massa da cabana concreta e a insignificância do objeto que sugestionaria ser responsável por mantê-la suspensa comporia uma metáfora da “transitoriedade” da matéria. Em suma: tudo aquilo que demorou mais de 70 dias de intensa convivência para ser erguido, à custa de sangue (lembre-se, por exemplo, a perfuração no pé de Rafael Pajé Aboud), suor (lembre-se de Bhagavan espremido debaixo da parede de madeira que pintava com tinta automotiva) e lágrimas (lembre-se o extremo de pressão psicológica enfrentado por Lucas Schlosinski), tudo aquilo, enfim, tornar-se-ia o simples contrapeso do pequeno objeto ressaltado por Iza Figueiredo, do qual a cabana inteira passaria a depender para se sustentar.

          “Neste caso, você estaria amarrando todo o conteúdo da cabana a um único significado, estaria reduzindo a obra…“, disse-lhe o guardião interino.

          Iza argumentou mais ou menos nestes termos: “A possibilidade desta redução, assumida em suas palavras, atesta a verdade sobre a fragilidade da obra material – que ao final será desmontada mesmo – e, por conseguinte, mostra a pertinência da intervenção como comentário.

          – Isto seria extremamente arrojado de sua parte – observou o guardião interino.

          – E não é isto que o Rubens quer? que assumamos um risco?

          – Sim; entretanto, na medida em que você liga a cabana a uma obra sua, você automaticamente liga a cabana a você mesma. Ora, ligar-se a esta altura com uma obra desta natureza é como agarrar um fio desencapado: há muita tensão acumulada aí, coisas que você desconhece, e, se você não estiver ligada na potência necessária, pode se queimar com a descarga…

          – Na mesma medida em que você me ameaça, você me instiga…

          – É verdade. Uma das coisas que eu aprendi aqui, justamente, é que, se você vem disposto ao embate com a obra alheia de guarda aberta, pode levar um balaço no peito. Certa vez fui questionar as falhas do Rubens na cara dele e, antes mesmo de começar o debate, ele me advertiu: ‘você tem certeza do que vai falar? Porque eu estou concentrado…‘ Com isto ele estava me dando um aviso sobre a seriedade das consequências…

          – Entendo que você queira me proteger, mas eu sou uma mulher de 65 anos: tenho experiência para lidar com as consequências do que faço.

          – O problema não é só de estrutura – que me parece que você tem de sobra – mas de nível de concentração. Esses caras, como o Pajé, o Bhagavan, o Shintate, o Jan, estão – como eu – há mais de 70 dias em guarda, em elevado grau de intensidade. Você, porém, dá a impressão de que pegou o bonde andando e quer sentar na janelinha.

          – De fato, tive diversos problemas de ordem pessoal que me impediram de estar aqui. Inclusive, tornei-me avó neste período. A cabana, contudo, não me saiu da cabeça, até pelo dever que eu assumi com o Rubens. Mas, à medida que o tempo foi passando – e eu não fui tendo essa convivência cotidiana com vocês – fui percebendo que ficava cada vez mais difícil me inserir de alguma maneira. Eu olho para isso aí [a cabana concreta], e tenho uma sensação muito forte de masculinidade, onde a inserção é muito difícil. Há três semanas, ainda achei que era possível contribuir de alguma forma, e comecei a construir coisas no meu ateliê. Conversei sobre isso com o Rubens, e ele me disse que não havia problema em trazer as coisas já prontas de fora. Então eu, a Fabíola [Chiminazzo] e a Ani [Rocco] nos reunimos para produzir coisas. Logo, porém, sentimos que nossas obras, embora bem acabadas, não pertenciam à história da cabana, eram coisas estrangeiras, sobrepostas artificialmente. Então eu propus às meninas que nós parássemos de vez com essa produção paralela, e nos puséssemos a refletir exatamente essa ausência, esse estar (psicológico) e não-estar (físico) na cabana. Chegamos à conclusão de que a cabana é uma obra presencial, que requer sim a participação física, e que, se existia ainda alguma contribuição possível para nós, uma contribuição digna, seria justamente revelar o quanto era necessária a presença de corpo e alma nessa obra.

          – Mas você padeceu as agruras e as transformações de ser uma cabaneira mesmo em casa, assim como alguns comentaristas do blog, como um certo MacAdden que eu conheço bem, viveram intensamente a cabana sem nunca ter pisado na Funarte.

          – Penso ao contrário: este nosso próprio encontro é uma comprovação da dinâmica estritamente presencial da cabana. Só está acontecendo porque estamos aqui.

          – E assim, de corpo presente, você julga demonstrar a impossibilidade de uma contribuição dos ausentes…

          – Mais exatamente, o que eu quero é dar a minha contribuição de ausente mostrando na prática a imprescindibilidade da presença.

          – E qual o valor disso?

          – Se todos tivessem participado 24h por dia, talvez não tivesse sido possível avaliar a necessidade da presença na obra. Então, eu quero transformar minha ausência em contribuição.

          – Amarrando a cabana inteira a você por um fio, na última hora…

          – Olha, eu não tenho nenhum interesse em criar polêmica para me promover. Minha preocupação é muito mais com o dever. Eu simplesmente não posso imaginar que isto vai acabar e eu não levei a sério, não participei de alguma forma. Acho falta de respeito inclusive com o convite que o Rubens me fez. O objeto sustentando a cabana por um fio é só uma idéia entre outras; eu cheguei mesmo a pensar numa performance em que meu corpo fosse completamente enrolado na cabana… isto aqui é uma grande colagem de pessoas vivas.

          – Pois é: o grande merzbau em que o Rubens nos meteu.

          A esta altura, Iza já havia praticamente desistido da idéia de amarrar a cabana por um fio. No derradeiro instante, porém, Iza viu sobre a mesa um daqueles pequenos bonecos playmobil, muito simpático, singularmente roto e esfrangalhado (estava maneta e sem a tampa da cabeça). Teve uma idéia e levantou-se. Foi até algum lugar fora da Funarte e, dez minutos depois, voltou com uma finíssima linha de costura. Colocou o bonequinho em cima de uma caixa de fita-cassete, colada como suporte na parede oposta à cabana concreta. Alfinetou uma ponta da linha no centro do monumento da cabana concreta e ligou a outra ponta ao bracinho cotoco do boneco na parede oposta, sem estirar, de modo que a linha ficou abaulada, perpassando toda a galeria. O resultado foi o bonequinho playmobil “empinando” a cabana concreta à distância, como uma pipa.

          “Perdurando ou não sua intervenção, o que importa é que a ação já foi tomada“, disse o escrivão a Iza Figueiredo, a qual deixou a galeria e foi embora de alma lavada.

          Assim que ficou pronta a intervenção, voltaram à cabana Jan Nehring, Bruno Shintate, Renata Junqueira e Piero Chiaretti.

          O escrivão saiu para almoçar. Quando voltou, a linha já havia sido rompida.

Na pista 4

08/10/2010 –segunda-feira

          Além de tudo, compreender Joseph Beuys (!)

Na pista 3

07/10/2010 – domingo

          Se Schwitters e Rauschenberg, cada um a seu modo, simpatizaram com o dadá, é preciso ver em que medida RES mantém relações com o maior dadaísta do Brasil, Artur Barrio.

Na pista 2

06/10/2010 – sábado

           Encontrei o rastro de RES na cama de Robert Rauschenberg.

Na pista 1

05/01/2010 – sexta-feira

          Seguindo as pistas de RES, estou investigando suas relações com Kurt Schwitters.

Extensões subterrâneas

4/10/2010 – quinta-feira

           O dia de hoje foi agitado na cabana. Às 18h00, os trabalhadores que voltavam para casa pela estação Santa Cecília de metrô depararam-se com uma apresentação musical de Thiago Nassif (contrabaixo), Pedro Maia de Resende (picape eletrônica), Victor Sardenberg (guitarra), André Sztutman (sintetizador) e Fernanda Zerbini (vocal). A “banda extemporânea” assim formada subiu ao palco do projeto Encontros do metrô paulistano determinada a tocar de improviso.

          Deu no que deu, mas o fato é que o público de Santa Cecília não desmereceu aquele bando de desgarrados do cotidiano esforçando-se ao máximo para chegar não se sabe aonde. O toque libertário flower-power no meio do underground foi assumido por Fernanda Zerbini, que comprou numa floricultura das Clínicas duas enormes margaridas para enfeitar os pedestais de microfone. Fernanda, aliás, foi ótima: introvertida na música de seus instrumentistas, na qual se inseria como um elemento sonoro a mais, sem nenhuma ansiedade de se fazer ouvir, poupou também o público de qualquer performance provocativa ou teatral.

          Ao retornarem à Funarte, foi a vez de os músicos se depararem com uma aparição subterrânea: quatro membros do coletivo Beco da Arte – Gustavo Ferro (desenho), Leonardo Araújo (texto), Amilton Santos (pintura) e Jaime Laureano (vídeo) – visitavam o QG da cabana extemporânea, em companhia do artista plástico Rafael RG, no que concederam uma entrevista a este escrivão.

          O Beco da Arte é um coletivo de artistas que fizeram do porão de um vizinho um bunker de circulação alternativa de produção cultural. Além de realizarem ali suas próprias experimentações, os caras do beco promovem mostras com artistas de fora nas quais a função de curadoria passa para as mãos do público frequentador, ao qual é delegada a responsabilidade de eleger aqueles que irão ocupar o porão.

          Numa sucinta análise estética da produção que tem ocupado o Beco desde 2008 – ano da abertura do espaço do porão para alheios –, Amilton Santos comentou que as obras, de um modo geral, se destacam pela fragilidade material, afirmando que “os trabalhos passam uma impressão de não preocupação”, o que seria uma tônica da produção contemporânea.

          Quanto à função do artista na sociedade, a resposta mais sintética – e mais espontânea – foi dada por Rafael RG, que simplesmente respondeu: “Ser feliz”. Explicando esta afirmação comentou que “mal conseguimos salvar a nós mesmos, quanto mais aos outros”.

          A entrevista, embora breve, serviu para reforçar a hipótese de que os artistas da atual geração tem se preocupado cada vez menos com as obras materiais em si, inquietando-os muito mais a busca de “um modo de viver” encarado enquanto autêntica arte.

          Isto fica mais evidente se atentarmos para a poética do próprio Rafael RG (pelo menos tal como foi resumidamente exposta pelo jornal Folha de São Paulo na matéria 10 apostas para 2010):

          “Está em toda parte este paulista. Rafael RG, 23, se divide entre curadoria, o trabalho numa galeria e a produção de obras. Para isso, encarna um personagem, performance que é ao mesmo tempo vida real. ‘É só aparecer nos lugares’, resume. ‘Todos se preocupam em entrar no sistema, mas não em se manter.’”

          A elucidadora matéria do jornal, assinada por Silas Martí, diz expressamente que “No fim desta primeira década do século, surge uma geração híbrida de artistas. Estão todos preocupados em repensar suportes, assumindo mesmo o papel de inventor. Dentro do circuito, não se contentam com a posição do artista. Querem ser curadores e galeristas ao mesmo tempo. (…) Parece ressurgir também com novo fôlego a performance: artistas que fazem da própria vida um ato artístico.

          Onde irá parar essa arte? A que necessidade ela responde? De qualquer modo, aqui está Rafael RG: aparecendo também na cabana.

AULA DE RES AOS “artistas” brasileiros

03/02/10 – quarta-feira

            Às 20h deste dia 3 de fevereiro de 2010, ocorreu no interior da galeria Mário Schenberg a aguardada aula de quarta de Rubens Espírito Santo.

            Desta vez, os ingressantes se depararam de imediato com uma espécie de cancela que lhes impedia a livre entrada, uma mesa composta de uma porta vermelha de geladeira sustentada por dois cavaletes, ornada com flores, detrás da qual Jan Nehring figurava como leão-de-chácara (RES tem encarregado Nehring de cobrar os demais discípulos, que pagam R$50,00 pela aula).

            Mesmo este escrivão, acompanhado de sua noiva, foi interpelado por Nehring ao atravessar a cancela:

            “Quem é você, mano?”

            “Eu sou o escrivão deste lugar”

            “Cadê os 50 reais?”  

            “Eu não pago”

            “Ele não paga”, autenticou RES.

            Sem a mesma sorte, alguns ingressantes demonstravam embaraço perante Nehring. Nisto se contrariava RES: “Brasileiro não sabe lidar com dinheiro! Por isso que este país é pobre!

             Apesar da tempestade que conseguiu colocar o eficiente metrô paulistano em colapso, levando a estação da Catedral da Sé à beira do caos (a cidade está há mais de 40 dias sob temporal), a aula de quarta começou pontualmente, o que fez alguns brasileiros sentirem o incômodo de puxar suas cadeiras em meio à fala adiantada do palestrante principal.

            RES na ocasião abordava a questão “separação entre mão e mente”. Antes exigira de cada discípulo uma definição sumária da palavra discurso, pertinente ao tema “dicotomia entre discurso e fazer-realização“ com que abrira a sessão. Cada qual oferecera uma definição aceitável do termo, mas RES só ficou satisfeito quando a atriz Flávia Tavares enfim disse “discurso é corpo” – o que no contexto não chegou a ser surpreendente, dado a mais aplicada defensora da doutrina de RES infelizmente não ter conseguido, nos últimos sessenta dias de cabana, articular sua fala sem recorrer às palavras “corpo” e “gato” – outro termo caro a seu mestre. Não obstante, tal recorrência obstinada não desmerece absolutamente o pensamento autônomo de Flávia Tavares, na medida em que ela parece almejar conscientemente, com o volume quase mântrico de sua repetição, apropriar-se do discurso do mestre, numa espécie de recurso antropofágico de autoencorpamento.

            Assentida a premissa inicial de Flávia Tavares de que discurso é corpo, RES tomou a premissa genericamente consentida de que a obra do artista é seu discurso para chegar logicamente à conclusão de que a obra do artista é seu corpo. “Se levarmos essa lógica às últimas consequências”, resumiu Rubens aos artistas, “temos que a sua obra é você, ou seja, se eu rasgo o desenho de alguém que está 100% ali, ele morre”.

            Esta constatação serviu de introdução coerente a um duro sermão, mais ou menos nestes termos:

            “O artista deveria ter a mesma responsabilidade, ao elaborar sua obra, que o alpinista tem em sua atividade: admitimos que o alpinista deve ser sério no seu trabalho, porque a sua vida está em jogo; mas não pensamos o mesmo sobre o nosso ofício, que é tão arriscado quanto o de alpinista! Qualquer infeliz que nunca leu nada na vida, que não conhece porra nenhuma, que estuda uma ridícula horinha por dia, se mete a ser artista. Qualquer imbecil que vive na noite, na boemia, na cocaína, em conversas com amigos inúteis o dia inteiro, acha que é artista. O que nós temos no Brasil é uma molecada fazendo arte, um monte de marmanjos que não passam de moleques inconsequentes.”

            Passou-se então para o referido tema “separação entre mão e mente”. RES utilizou-se do termo ipseidade (do latim “ipsum” = o mesmo) para defender a “conformidade fundamental entre aquilo que o artista fala e o que vive”, acrescentando que “alguém ipseidado é alguém encarnado; alguém desipseidado é alguém desencarnado”. Como modelo ideal de ipseidade RES citou seu grande ídolo, o artista alemão Joseph Beuys: “O colete, o chapéu do Beuys eram uma segunda pele dele, uma extensão dele, uma outra orelha. Havia total conformidade entre sua obra e sua vida. É isto que me importa no Beuys: como se vestia, como falava, como comia, como era o seu apartamento, se ele traía ou não a esposa, se ele andava ou não em festas, como era o seu dia a dia, como era a sua vida”. 

             Já o exemplo contrário – a total “desipseidade” – ficou por conta da figura de Roberto Winter – aquele jovem artista intelectual que, depois do episódio ocorrido no interior da cabana no dia 16/12/2009 (cf. O dever), entrou com uma representação contra Rubens junto à diretoria da Funarte (cf. Diretor Nacional da Funarte visita cabana – continuação).  À total “dicotomia entre mão e mente” Rubens Espírito Santo denominou jocosamente winterismo, neologismo cuja autoria alegou provir da mente do “filósofo” Piero Chiaretti, seu discípulo. A troça sobre Roberto Winter foi recebida com gargalhada geral.

            “Por isso eu quero que se foda se o cara vem aqui falar de Nietzche, de Beuys, de Deleuze, do raio que o parta, se não existe uma relação fundamental sobre o que ele fala e o que ele é”, acrescentou. Retomando sua concepção de que o discurso (a fala/obra do artista) é seu corpo, RES concluiu que “ter corpo é o artista ter uma obra fora dele idêntica à obra que ele tem dentro dele; é como nós nos comportamos no mundo: isso é ter um corpo”, arrematando que “se a gente leva a sério o que se está falando, sobra pouca gente em São Paulo”. Enfim, o versículo bíblico “e o verbo se fez carne” serviu de ilustração para a afirmação de que “o corpo é o próprio pensamento no mundo”; assim RES terminava de “esclarecer e investigar o que entendo por corpo”, conforme o programa da aula distribuído aos participantes. 

            O próximo tema foi “fala débil/voz débil”. Sobre isto RES afirmou que “ter voz potente é fazer com que aquilo que se fala se materialize no mundo real”, sendo para isso imprescindível haver “adequação entre essa voz e o que se está comunicando”, pois a própria voz “revela se a pessoa tem alma, coração, medo…” Como modelo de voz potente citou o sânscrito enquanto língua sagrada, “língua dos deuses”, cuja simples pronúncia tornaria concreta a presença real daquilo de que se fala.

          Em seguida veio à baila o tema “suscetível demais/ implícito demais”. Aqui Rubens foi taxativo:Aprendam rápido a deixar de ser suscetíveis; abandonem completamente a questão de ser suscetível. Implorem para que alguém ache seu trabalho ruim, rezem para que as pessoas sejam agressivas com você. Vocês aprendem mais assim do que com aqueles que os elogiam.

            Especificamente quanto ao “implícito demais”, propôs que cada um fizesse o seguinte exame de consciência: “Será que eu consigo dizer pro outro o que realmente está no meu pensamento? Que abismo há entre o que está dentro da minha cabeça e o que eu consigo comunicar?

            Aprofundando essa noção de abismo, RES incluiu a “elaboração infinita de projetos e mais projetos que nunca se realizam” como uma manifestação sintomática da falta de atitude daqueles que se dizem artistas por aí, mas não passam de amadores que denigrem a própria palavra artista na sociedade. “Eu não tenho projetos,” – disse RES veementemente – “eu tenho realizações no mundo real”.

          Como ilustração da ausência de abismo entre pensar e comunicar, citou o processo de trabalho do arquiteto inglês Frank Gary, o qual, em seu megaescritório em Londres, supostamente nem chega a desenhar o projeto de seus edifícios – ele simplesmente os moldaria concretamente com qualquer coisa que lhe estivesse à mão (folhas de papel, por exemplo) e os levaria para os técnicos que – estes sim – desenhariam o projeto e dariam o devido encaminhamento operacional. Outro exemplo foi Anish Kapur, que, quando perguntado numa palestra sobre qual eram seus projetos, teria respondido “Eu trabalho com materiais, não trabalho com projetos”. Assim, RES concluiu este item de sua aula recomendando a todos: “Sem delírios de projetos! Vão pro mundo real e façam! Se der merda, foda-se!

          Chegou então o tema “timidez formal e intelectual, autoestima baixa e pouco ousada, gozo no lugar errado – resistência”. Após afirmar que este era o “triste quadro de nosso país”, RES mudou a dinâmica da aula: mandou que cada um lhe fizesse uma pergunta, que, contudo, não seria respondida por ele, mas por Piero Chiaretti. Deste modo, RES oferecia ao discípulo uma oportunidade de exercitar sua retórica, fortalecendo-a no embate prático com seus iguais.

          As respostas de Piero às perguntas dos companheiros foram variações da tese de que “a falta de corpo não sustenta nenhuma fé”. Dentre as várias perguntas que lhe foram dirigidas, Piero manifestou desdém pela da artista plástica carioca Fernanda Lago, que, convidada por RES a falar (e a estar na cabana), perguntou sobre o porquê da vaidade de os artistas acharem que seu trabalho é sempre melhor que o dos outros: “Desculpe“, disse-lhe Piero, “mas acho que sua pergunta foi fraca, quer dizer, desculpe o caralho, foi muito fraca mesmo”, e não respondeu.

          Fernanda também não insistiu. Em seguida, RES incitou as pessoas a “começarem a ser cruéis e violentas” em suas perguntas. Ninguém, contudo, demonstrou desejo de se desgastar em maiores discussões.

          Terminada a rodada de perguntas dos participantes “oficiais” (aqueles que estavam à mesa com RES), um visitante lúcido, de nome Leonardo Andrade, afundado no estofado da poltrona baixa que lhe coube, se dispôs a fazer uma pergunta antes do iminente encerramento da sessão encabeçada por Piero Chiaretti, no que fez duas:

          “Qual a distância entre ousadia e verdade, e onde está a sua verdade?

          “O que completa essa distância é a fé. A verdade está na fé”, respondeu Chiaretti prontamente.

            Ao que Andrade perguntou:

           “A gente tem que buscar ser ousado… ou verdadeiro?

           “Só quem é ousado enxerga o brilho do que é verdadeiro”, foi a resposta de Piero.

          Como a relação corpo-fé tinha sido a tônica do discurso de Chiaretti, Lucas Rehnmam pediu que se esclarecesse de qual tipo de fé se estava falando, ao que Chiaretti respondeu “fé da pessoa nela mesma”, negando assim qualquer relação com a fé no sentido comum, de “fé em Deus”.

          RES deu em seguida a Flávia Tavares a chance de exercitar sua retórica. Antes, mandou trocassem de lugar Leonardo Andrade e Fernanda Lago, a qual deixou a mesa sem qualquer manifestação e foi ocupar a poltrona baixa de Andrade.

          Começara a sessão de Flávia Tavares. Respondendo à pergunta “onde está a fragilidade da cabana?” de Bhagavan David, a atriz afirmou, entre outras coisas, que era necessário ”dar um gato na metafísica, ao que Bhagavan externou que, embora compreendesse o sentido da palavra “gato” entre os participantes da cabana, não estava satisfeito com a resposta.

          RES então pediu que Bhagavan reformulasse sua pergunta, que foi redigida da seguinte forma:

            “Levando-se em conta uma grande potência, um ego forte e protegido, essa é uma posição de risco-limite, na qual, se há uma desaceleração, ele [Rubens] ficaria morto ou louco; nessa hipótese, há assumir outro ser, há reencarnação? Há Ressurreição?”

          “Pode ser que eu mesma dê esse exemplo”, respondeu Flávia Tavares com firmeza e ao mesmo tempo delicadeza, como esperançosa e confiante da possibilidade de ressuscitar após a total desconstrução do seu ser. Completou dizendo que “o homem Rubens vive o real no talo o tempo inteiro” e que, naquela hipótese (de desaceleração) ele poderia, talvez, “passar para outra dimensão que não a corporal”, embora ainda sendo o mesmo.

            Bhagavan insistiu na gravidade de um erro estrutural na figura de RES, o qual seria exatamente a própria transparência – um erro de transparência de potência – que faria com que Rubens, externando a todo tempo sua força total, tornasse-se um alvo medido e fácil. Esta seria, em suma, aquela “fragilidade da cabana” que ele mesmo [Bhagavan] suscitara como potencialmente fatal e para a qual queria saber se havia antídoto.  

            RES despertou da sonolência do debate e voltou a palavra para si:

          “A característica de um grande artista é essa fragilidade. Senão, há a cristalização, o envelhecimento rápido, a obra fica datada muito rapidamente.”

            “É preciso deseducar-se e assumir outro corpo“, afirmou Flávia Tavares.

            Lucas Rehnman retesou-se e falou: “Eu tenho uma pergunta”

            Não era sua vez de falar.

            “Diga-a”, disse-lhe RES.

            “Rubens, você quer ficar em carne viva?”

             Rubens Espírito Santo, talvez entendendo as conseqüências de uma literalidade da ambígua questão (“carne esfolada” e/ou “carne que vive“), passou longo tempo calado, num minuto cujo silêncio se esgueirou em alguma fresta entre o vazio do constrangimento e a densidade material do trágico.

          “Está boa esta resposta para você?”

          “Sim”, respondeu-lhe Rehnman.

          Rubens beijou a mão do discípulo, no que foi correspondido com um beijo na face.

          “Depois do que aconteceu aqui, acho que não precisa mais nada. Podemos ir embora.”

          As pessoas, porém, insistiam em prosseguir o debate, não achando nada de muito excepcional em uma pergunta como aquela ter sido respondida com um profundo silêncio.

*

Reflexões de véspera

“Desde que o homem deixa de ser isolado, ele experimenta as impressões nascidas de suas ligações com outrem. (…) Esta ação imaterial de todos os homens sobre cada um permanece mais frequentemente confusa e inconsciente naquele que é o sujeito dessa ação. (…) Uma sala de teatro cheia de espectadores, uma rua abarrotada de gente não são somente um conjunto material de partes que o espaço aproxima, e que permanecem aliás independentes. Os seres que constituem as aglomerações mais ou menos duráveis não se avizinham fortuitamente. Cada um deles, sem dúvida, tem razões especiais de se encontrar lá.”  JULES ROMAINS (1885-1972), em 1905.

 “A nova geração sente que os indivíduos não são caminhos indenpendentes, e que, semelhantes às ilhas, eles se isolam na superfície para continuar unidos sob as águas.”   JULES ROMAINS, em 1909.

O Grande Merzbau

01/02/10 – segunda-feira

          A cabana de Rubens é um grande merzbau.



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