O SENTIDO DA AUSÊNCIA

 09/10/2010 – terça-feira

          Às 09h30 de hoje, adentrou a galeria Mário Schenberg uma figura enigmática, uma senhora de calça e camiseta em tons de cinza, cabelos grisalhos, desconhecida deste escrivão, mas que, pelo vigor da postura, parecia manter algum vínculo com a cabana que não o de simples visitante.

          Bruno Shintate dormia no quarto coletivo e Jan Nehring estava de saída para a FAU.

          “O Rubens?“, perguntou a desconhecida.

          Jan respondeu que não estava; a desconhecida continuou a lançar seu olhar assertivo ao redor.

          “Fique à vontade. Qualquer dúvida, pode perguntar“, disse o escrivão, ao que recebeu de volta um simples “não“. Mais uma visitante endurecida?

          Talvez fosse o caso. Porém, quando Jan comentou algo sobre o fato de RES ter declarado, ontem, estar encerrada a fase de produção material da cabana, a mulher tomou o telefone celular para ligar diretamente para ele, no que, contudo, não teve sucesso.

          Jan Nehring foi embora e a visitante desconhecida ficou a sós com o escrivão, o qual permaneceu, assim, como guardião da cabana (na ausência de Rafael Pajé, aquele que fica sozinho tomando conta do QG da cabana recebe este título).

          “Você quem é?“, perguntou o guardião interino à estranha.

          “Eu sou uma dessas que tem o nome aí fora“. Referia-se a mulher à lista dos 28 integrantes oficiais da cabana extemporânea cujos nomes estão colados na parede externa da galeria Mário Schemberg ao lado da porta de entrada, em letras compostas de fita adesiva preta, algumas das quais foram inclusive arrancadas por gente de dentro da cabana com a provável intenção de apagar o nome daqueles integrantes que teriam participado pouco (ou nada) da ocupação.

          Iza Figueiredo: eis, enfim, o nome da cabaneira extemporânea de surpreendentes 65 anos de idade, sendo ela justamente uma das pessoas cujo nome na parede externa da Mário Schenberg estava ameaçado (o próprio I inicial está suprimido).

          Iza lamentou que RES houvesse dado por encerrada a fase de produção material, pois vinha agora com vontade de fazer uma intervenção, mais exatamente um fio ou corda que, partindo do ponto mais alto e central da cabana concreta, fosse estirado de modo descendente até ser amarrado a um pequeno objeto próximo ao chão da parede oposta, o qual passaria assim a sugestão de ser um “calço” da obra. A disparidade entre a enorme massa da cabana concreta e a insignificância do objeto que sugestionaria ser responsável por mantê-la suspensa comporia uma metáfora da “transitoriedade” da matéria. Em suma: tudo aquilo que demorou mais de 70 dias de intensa convivência para ser erguido, à custa de sangue (lembre-se, por exemplo, a perfuração no pé de Rafael Pajé Aboud), suor (lembre-se de Bhagavan espremido debaixo da parede de madeira que pintava com tinta automotiva) e lágrimas (lembre-se o extremo de pressão psicológica enfrentado por Lucas Schlosinski), tudo aquilo, enfim, tornar-se-ia o simples contrapeso do pequeno objeto ressaltado por Iza Figueiredo, do qual a cabana inteira passaria a depender para se sustentar.

          “Neste caso, você estaria amarrando todo o conteúdo da cabana a um único significado, estaria reduzindo a obra…“, disse-lhe o guardião interino.

          Iza argumentou mais ou menos nestes termos: “A possibilidade desta redução, assumida em suas palavras, atesta a verdade sobre a fragilidade da obra material – que ao final será desmontada mesmo – e, por conseguinte, mostra a pertinência da intervenção como comentário.

          – Isto seria extremamente arrojado de sua parte – observou o guardião interino.

          – E não é isto que o Rubens quer? que assumamos um risco?

          – Sim; entretanto, na medida em que você liga a cabana a uma obra sua, você automaticamente liga a cabana a você mesma. Ora, ligar-se a esta altura com uma obra desta natureza é como agarrar um fio desencapado: há muita tensão acumulada aí, coisas que você desconhece, e, se você não estiver ligada na potência necessária, pode se queimar com a descarga…

          – Na mesma medida em que você me ameaça, você me instiga…

          – É verdade. Uma das coisas que eu aprendi aqui, justamente, é que, se você vem disposto ao embate com a obra alheia de guarda aberta, pode levar um balaço no peito. Certa vez fui questionar as falhas do Rubens na cara dele e, antes mesmo de começar o debate, ele me advertiu: ‘você tem certeza do que vai falar? Porque eu estou concentrado…‘ Com isto ele estava me dando um aviso sobre a seriedade das consequências…

          – Entendo que você queira me proteger, mas eu sou uma mulher de 65 anos: tenho experiência para lidar com as consequências do que faço.

          – O problema não é só de estrutura – que me parece que você tem de sobra – mas de nível de concentração. Esses caras, como o Pajé, o Bhagavan, o Shintate, o Jan, estão – como eu – há mais de 70 dias em guarda, em elevado grau de intensidade. Você, porém, dá a impressão de que pegou o bonde andando e quer sentar na janelinha.

          – De fato, tive diversos problemas de ordem pessoal que me impediram de estar aqui. Inclusive, tornei-me avó neste período. A cabana, contudo, não me saiu da cabeça, até pelo dever que eu assumi com o Rubens. Mas, à medida que o tempo foi passando – e eu não fui tendo essa convivência cotidiana com vocês – fui percebendo que ficava cada vez mais difícil me inserir de alguma maneira. Eu olho para isso aí [a cabana concreta], e tenho uma sensação muito forte de masculinidade, onde a inserção é muito difícil. Há três semanas, ainda achei que era possível contribuir de alguma forma, e comecei a construir coisas no meu ateliê. Conversei sobre isso com o Rubens, e ele me disse que não havia problema em trazer as coisas já prontas de fora. Então eu, a Fabíola [Chiminazzo] e a Ani [Rocco] nos reunimos para produzir coisas. Logo, porém, sentimos que nossas obras, embora bem acabadas, não pertenciam à história da cabana, eram coisas estrangeiras, sobrepostas artificialmente. Então eu propus às meninas que nós parássemos de vez com essa produção paralela, e nos puséssemos a refletir exatamente essa ausência, esse estar (psicológico) e não-estar (físico) na cabana. Chegamos à conclusão de que a cabana é uma obra presencial, que requer sim a participação física, e que, se existia ainda alguma contribuição possível para nós, uma contribuição digna, seria justamente revelar o quanto era necessária a presença de corpo e alma nessa obra.

          – Mas você padeceu as agruras e as transformações de ser uma cabaneira mesmo em casa, assim como alguns comentaristas do blog, como um certo MacAdden que eu conheço bem, viveram intensamente a cabana sem nunca ter pisado na Funarte.

          – Penso ao contrário: este nosso próprio encontro é uma comprovação da dinâmica estritamente presencial da cabana. Só está acontecendo porque estamos aqui.

          – E assim, de corpo presente, você julga demonstrar a impossibilidade de uma contribuição dos ausentes…

          – Mais exatamente, o que eu quero é dar a minha contribuição de ausente mostrando na prática a imprescindibilidade da presença.

          – E qual o valor disso?

          – Se todos tivessem participado 24h por dia, talvez não tivesse sido possível avaliar a necessidade da presença na obra. Então, eu quero transformar minha ausência em contribuição.

          – Amarrando a cabana inteira a você por um fio, na última hora…

          – Olha, eu não tenho nenhum interesse em criar polêmica para me promover. Minha preocupação é muito mais com o dever. Eu simplesmente não posso imaginar que isto vai acabar e eu não levei a sério, não participei de alguma forma. Acho falta de respeito inclusive com o convite que o Rubens me fez. O objeto sustentando a cabana por um fio é só uma idéia entre outras; eu cheguei mesmo a pensar numa performance em que meu corpo fosse completamente enrolado na cabana… isto aqui é uma grande colagem de pessoas vivas.

          – Pois é: o grande merzbau em que o Rubens nos meteu.

          A esta altura, Iza já havia praticamente desistido da idéia de amarrar a cabana por um fio. No derradeiro instante, porém, Iza viu sobre a mesa um daqueles pequenos bonecos playmobil, muito simpático, singularmente roto e esfrangalhado (estava maneta e sem a tampa da cabeça). Teve uma idéia e levantou-se. Foi até algum lugar fora da Funarte e, dez minutos depois, voltou com uma finíssima linha de costura. Colocou o bonequinho em cima de uma caixa de fita-cassete, colada como suporte na parede oposta à cabana concreta. Alfinetou uma ponta da linha no centro do monumento da cabana concreta e ligou a outra ponta ao bracinho cotoco do boneco na parede oposta, sem estirar, de modo que a linha ficou abaulada, perpassando toda a galeria. O resultado foi o bonequinho playmobil “empinando” a cabana concreta à distância, como uma pipa.

          “Perdurando ou não sua intervenção, o que importa é que a ação já foi tomada“, disse o escrivão a Iza Figueiredo, a qual deixou a galeria e foi embora de alma lavada.

          Assim que ficou pronta a intervenção, voltaram à cabana Jan Nehring, Bruno Shintate, Renata Junqueira e Piero Chiaretti.

          O escrivão saiu para almoçar. Quando voltou, a linha já havia sido rompida.

2 Respostas para “O SENTIDO DA AUSÊNCIA”


  1. 1 BOCÂINA 09/02/2010 às 19:57

    ESSA É BOA…SÓ DA PRA CHORAR RINDO…

  2. 2 macadden 09/02/2010 às 21:04

    iza sem o z que elhe foi arrancado fica ia,e realmente ela foi,não pode ficar mais justificou,na minha mera opinião tudo faz parte do eco sistema da cabana,agora uma coisa é a importancia que cada um acha que tem na cabana,a outra é a importancia que cada um realmente tem na cabana,e seria impossivel chegar a um acordo sobre isso,o que realmente importa é que compárada a um veiculo a cabana moveu-se até agora de alguma maneira e atraves de alguma estrada,e cada um enxerga essa maneira e essa estrada de uma maneira particular ou seja,é o mesmo principio da arte em geral,uns acham uma porcaria outros gostam e o resto acha um disperdicio sobre a mesma coisa,e arte nos da essa maravilhosa liberdade,diferentemente da verdade que não nos permite interpretações,e se alguem ousa interpretala demonstra ingenuidade sobre as coisas,mais o que importa é que de alguma maneira todos estão dando sua contribuição na cabana,é logico que ja deu pra perceber quem é mais e quem e quase nada dentro desse eco sistema,eu apresso-me eem dizer por exemplo que sou um quase nada,mais não tão nada assim a ponto de achar que a cabana possa ser impinada por um playmobil,mesmo assim valeu a tentativa


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